quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Aterrar

Encher com terra, cobrir com terra, pousar em terra são alguns dos significados oferecidos a palavra pelo bom e velho Aurélio. 

E inevitavelmente, nos remetemos a região do corpo que se encontra o mais próximo a terra ou chão a maior parte do tempo: nossos pés.

Na conecção pé-terra, obtemos o centramento e equilíbrio, base para o movimento e a ação do restante do corpo. Minha autonomia. E não me refiro só ao ponto de vista postural.

É muito frequente, nos distanciarmos da terra. Para começar, usamos sapatos que nos oferecem uma boa barreira ao contato e se forem de bico fino, apertados, incômodos, muito embora, fashion (?!) e esteticamente "bonitos"(?!) farão nossos pés sofrerem dentro deles. Na radiografia da situação temos dedos crispados, encavalados, musculatura intrínseca dolorida, calos... e já começamos a nos distanciar da terra, mesmo estando com os pés no chão.

Não demora para lembrarmos do salto alto, impondo um constante jogo de desequilíbrio a todo o corpo, piorando à medida que saímos da estática para o caminhar, e ainda se agravando nos terrenos irregulares e inclinados. Aumenta-se muito a quantidade de adaptações e ajustes que o sistema nervoso central e periférico terão que fazer para permitir e refinar a manutenção da postura e do deslocamento, impedindo que desmoronemos no chão (não é a forma mais segura de aterrar, concorda?)

Além disto, a lordose lombar ficará muito acentuada, com grandes chances de passar de uma situação fisiológica à patológica (dores lombares). Daí, pela adaptabilidade forçada, se tornará mais díficil viver sem o salto alto, porque o nível de encurtamento dos músculos posteriores (coluna, pernas) principalmente com o uso constante, não permitirá que permaneça muito tempo em pé sem que o esteja utilizando (já ouviu a fala: me sinto melhor de salto do que sem?)

Ainda, o questionamento sobre o quanto de insegurança e angústia nos pré-dispomos ao lidar sem consciência, com uma situação de desequilíbrio permanente (mesmo para as muito "adaptadas"). Impomos mais trabalho, sacrifício e risco ao corpo, a nós.

Outro exemplo que denota a tendência de nos afastarmos do chão é quando sentamos e cruzamos as pernas, significando que uma delas ficará no ar, diminuindo a base de apoio e provocando o deslocamento no eixo da coluna vertebral. Menos mal, quando pelo menos cruzamos afastando uma coxa da outra (como homem faz ou fazia). Mas, será elegante mesmo cruzar as pernas ao sentar? Que tipo de elegância busco?

Não me esqueci que vivo neste Planeta, numa sociedade "civilizada" existindo certos padrões já estabelecidos, aos quais fomos apresentados e habituados a valorizá-los, considerando-os adequados e esteticamente corretos. Assim acontece, mas não nos impede de olharmos e refletirmos sob outros ângulos, visando benefícios a nós mesmos.

Assim, pensar na manutenção da forma, evitando desconfortos e deformidades deveria ser naturalmente a escolha. Sabemos que não é possível andarmos descalços o tempo todo. Mas, há um tempo que podemos. Então, devemos andar. E também, só adquirirmos calçados confortáveis que respeitem ao máximo a anatomia dos pés, além de abolir o uso de salto. Hoje existem inúmeras possibilidades de se encontrar modelos interessantes, sem que sinta que está usando algo demodé. Mesmo para um figurino de festa, é possível. 

Outro ponto, refere-se ao questionamento do quanto se faz necessário para que através da conecção pé-terra harmonizemos nossas enérgias. Somos compostos por campos magnéticos de enérgia, cargas elétricas positivas e negativas que precisam estar equilibradas, sendo o mecanismo facilitado quando colocamos os pés no chão. E isto, não tem nada de esotérico.

Estas são apenas algumas percepções que procuram despertar o olhar e o direito a autonomia de cada um. Temos a liberdade de escolher o que julgamos ser mais interessante a nós, da estética à saúde e ao bem-estar.

Mas confesso, que quando vejo um corpo lutando para se equilibrar no salto, mesmo a pessoa apresentando uma fisionomia que não denote tal esforço, só me vem a cabeça uma inversão da expressão da qual já ouvimos tantas vezes: Será que não é melhor descer do salto?

Aterrar-se.
Mais um caminho para um Corpo Sustentável.